[Desabafos de uma apaixonada por livros] Português de Portugal e outras línguas...


Ao longo deste blog tenho vindo a manifestar o meu gosto em ler na minha língua materna. Português de Portugal. É assim que eu gosto, é assim que eu sou, é assim que vai ser.
Ainda agora ao comentar e ler as respostas sobre uma editora (não vale a pena mencionar qual nem onde foi o assunto, pois quero falar só do assunto em si), apesar da editora ser portuguesa (de Portugal) editou um livro cá, no nosso país, mas no original do Brasil, com rodapés no livro a explicar as expressões brasileiras e tudo (peço desculpa, mas não vou estar sempre a repetir "Português do Brasil", vou escrever brasileiro, é mais fácil e que eu saiba não é ofensivo visto serem o "Povo Brasileiro").
A autora, muito simpática por sinal, não tenho nada contra povo nenhum no mundo, este cá em Portugal, fez muito bem escreveu o livro na sua língua, acho muito, muito bem, nem compreendo as pessoas que escrevem noutras línguas a não ser a sua materna, mas cada um sabe de si, faz como se sentir melhor, tal como eu, só não achei bem sem qualquer aviso, ainda por cima um livro com um tema que me toca muito e diz muito respeito, ainda mais parte do lucro da venda ir para uma associação de PORTUGAL, nem um aviso tem a dizer que não está na nossa língua. Nem sequer ter sido editado na nossa língua, e foi editado em Portugal. Já foi ou será editado no Brasil em brasileiro, em Portugal, em brasileiro e basicamente ainda acaba (espero que sim) traduzido em 20 países/línguas diferentes, mas nenhuma delas vai ser o Português de Portugal!!?

Desde miúda que sempre fui muito patriota. Não perguntem porquê, é daquelas coisas que nasce connosco. Há quem tenha pancas piores. Quando eu nasci, a minha mãe começou a fazer aqueles álbuns tipo scrapbook, de colagens, recortes e fotos conforme eu ia crescendo. Com x dias de vida, com x meses de vida, com x anos de vida. Quando cheguei aos sete anos, o álbum perguntava: "O que quero ser quando for grande?"

E eu escrevi, naquela letra muito infantil: " Quero ser tropa, Polícia e Veterinária!"
Porque é que uma miúda de sete anos, cor-de-rosa e tancinhas respondeu logo "tropa", não sei. Ninguém na minha família nessa altura era militar. Tinham sido, já não eram antes mesmo de eu nascer. Mas por algum motivo eu acabei por ser quase tudo aquilo que sonhava nessa altura, fui e continuo a ser a primeira e única mulher militar na família, quem diria? Com dezasseis anos decidi "vou ser tropa, policia e veterinária" (para mim veterinária era só a parte de tratar dos cães, que eu sempre adorei, sabia lá eu na altura o que fazia um veterinário, só sabia que tratavam dos cães) então com dezasseis decidi "Vou ser policia, do exército, na especialidade de tratadora de cães! Vou ser policia, vou ser tropa e vou ser veterinária! Tudo em um!"

Quase que consegui (faltou a parte do tratadora de cães, e até isso só acabei no fim por não ir por motivos maiores) mas o resto contra tudo o que acreditavam, consegui, só com a minha teimosia e força de vontade. Incrível, mas consegui mesmo e claro que espetei isso na cara de toda a família, que não acreditaram que eu era capaz, só com a minha força de vontade e sem cunhas nenhumas. Rebentei-me toda, literalmente, mas consegui.

Isto tudo depois de ter estado a viver em Espanha quatro muito longos anos... Fui contrariada, com dezoito anos e vivi lá contrariada esses anos todos. Para mim não parece que foram quatro, parece que foram vinte. E foi nessa altura que comecei mais a ler noutras línguas, que remédio tinha eu, não é verdade? E li muito em Espanhol, usava muito a biblioteca deles, lia algumas coisas em Inglês, até aprendi Japonês sozinha e tudo, os básicos, fazia traduções, bem...

Mas nada me deixava mais feliz do que quando me chegava às mãos um livro em Português de Portugal... Fazia-me sentir de regresso a casa, e eu sentia tantas, mas tantas saudades de Portugal, de Lisboa, da comida, das pessoas, do ar, de tudo! Não imaginam o que foi para mim, que sempre fui, por algum motivo, muito agarrada ao meu país, tipo a mesma obsessão que muitos têm por futebol ou seja o que for, eu tinha e tenho uma obsessão por Portugal. E vi-me forçada a ir embora, com os meus pais para Espanha e abandonar tudo. Bem que tentei ficar, tinha acabado de fazer os meus dezoito anos, comecei logo a trabalhar, mas foi impossível. A vida é mais complicada do que isso e na altura em que a crise se fazia começar a sentir ainda mais. Quatro anos depois voltei a Portugal, e fui logo para a tropa tentar realizar o meu "sonho". Teria sitio para ficar, apesar de passar a ficar sozinha no meu país, em cidades que não conhecia e ser dizimada todos os dias, mas tudo para realizar o meu sonho e tudo por servir a minha Pátria.

Se foi depois de ter ido viver para Espanha que fiquei ainda mais obcecada por Portugal? Talvez... E foi agora mesmo a responder a um comentário que me dei conta disso, quando fui defender a minha opinião sobre a editora ter tido tanto trabalho em "arranjar" algumas coisas na edição do livro e ter metido notas de rodapé do que significam certas expressões brasileiras para português, em vez de traduzirem logo para a nossa língua, não percebi o sentido nem as justificações me adiantaram para alguma coisa.

Se nos outros países do mundo traduzem tudo, tudo, tudo, os espanhóis só agora é que estão a aderir às legendas, e mesmo assim são raros, pois até o áudio dos filmes, séries, documentários, absolutamente tudo eles traduzem, vamos ao cinema lá nem legendas têm, é tudo áudio espanhol, e quem diz Espanha diz outros tantos países que têm TUDO na sua língua, porque é que Portugal tem de ser diferente e desprezar a nossa pátria, a nossa história, a nossa língua, porquê? Porque é que não a honramos? Porque estamos sempre a mudar e usar estrangeirismos, acordo ortográfico e sei lá mais o quê?
É assim tão difícil ser Português de Portugal? Ler em Português de Portugal? Tenho de ler em brasileiro, em inglês, em italiano, em chinês, em tudo menos em português porquê?! Porque é que os tugas têm de aprender as línguas todas do mundo, mas onde quer que um tuga vá ninguém fala Português? Nem querem saber?! Porra!

Na Espanha era sempre: "No te entiendo!" e uma gaja a esforçar-se para falar espanhol e ainda gozavam! Ou em brasileiro: "Eu não percebo o que você diz cara!" em francês: "Je ne vous comprends pas", em inglês: "I don't understand you", italiano: "Non ti capisco", japonês: "Watashi wa anata no iukoto wo rikai shite inai", querem mais?! Eles não nos compreendem, mas NÓS, tugas, é que temos de perceber o mundo todo!! Temos de ser uns poliglotas do caraças! Só porque somos tugas!

Na Espanha servi muito à mesa, como sou uma tuga do caraças, era o único trabalho que me davam, servir à mesa, não me queriam para mais nada, porque vinha de Portugal e como se fartaram de me dizer na cara, os tugas na Espanha só servem para servir à mesa. Servi um pouco em todo o lado, desde tascas a resorts, falei de tudo, vi de tudo, se eu não falasse a língua deles, fossem de onde fossem, garanto-vos que eles não falavam a minha. Um tuga esteja onde esteja tem que falar a língua dos ouros gajos que vêm do sol posto, de terras que nem sabia que existiam. Se um tuga não souber, inventa! Faz gestos! Principalmente se tu, que estiveres a ler isto, fores TUGA!!!

Vais ter que te desenrascar, pois além de ti no resto no mundo ninguém fala português de Portugal! A não ser que te cruzes com outro e mesmo assim podes ter o azar de te cruzares com um Açoriano ou Madeirense! Mesmo que um "estranja" fale a tua língua ou no mínimo perceba, vão fazer de tudo ao seu alcance para fazer de conta que não te percebem só para meter nojo e te verem ali a esbracejar. Há excepções, conheci algumas, mas conto-as pelos dedos de uma mão e ainda sobra.

Ou então, tuga que estejas a ler isto, passas a fazer como eu e mandar todos os "estranjas" que te chatearem só porque és tuga, para um sitio que toda a gente do mundo e arredores compreende, sejam eles de onde forem. Acreditem em mim, funciona mesmo. Basta usares uma frase que rima com vai para a  "luta" que te "sorriu", nem que sejam extra-terrestres, compreendem. Oh acredita que sim... Digo por experiência própria.

Nunca me vão ouvir dizer; "Peço desculpa por querer ler Português de Portugal!" Não peço!
Livros, literatura eu só leio em Português (de Portugal!!), de resto ninguém me obriga a ler seja o que for, em que outra língua for. Se não houver para ler em tuga, não leio. Se a tradução estiver uma bela porcaria que me faça desistir da leitura, azar o meu! Eu amanho-me sempre de alguma maneira, agora podem ter a certeza que não me vão obrigar, nem convencer a ler noutra língua a não ser a minha língua mãe, a língua do Camões, a língua do Fernando Pessoa, a língua com que eu nasci, cresci e  vivi, amei e aprendi.

Boas leituras, seja em que língua for, desde que vos faça feliz.

7 comentários:

  1. Oie,

    Bem mas que testamento e mais uma vez se fica a saber um pouco mais de ti ehehe, parece-me bem :D

    Não tenho essa sensação, mas acredito que seja como referes, afinal falas pela experiência que tens, é triste mais a mais da parte dos nossos vizinhos espanhois :(

    Quanto ao ler que remédio tenho só leio em tuga e chega-me bem :D

    Bjs

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    1. Deves ter sido o único a ler este meu testamento/desabafo =P

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  2. Olá! Concordo contigo em muitos pontos. Realmente se somos portugueses, porque haveremos de falar outras línguas no nosso próprio país? Sou a favor de conhecer outras línguas e culturas, mas em Portugal sê português, claro!
    E quanto a esse livro, não sei qual é, mas também se souber não tenciono lê-lo. É uma vergonha uma editora portuguesa não fazer o favor de colocar o livro numa edição pt-pt para além da pt-br! Enfim...
    Beijinho

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    1. É uma pena o terem feito, o tema, bullying na infância diz-me muito, mas não consigo mesmo ler um livro no qual passo quase tanto tempo a ler as traduções nos rodapés, do que logo uma tradução pt-pt bem feita, não compreendo nem justifica a resposta que me deram:

      - A Livros de Ontem é uma editora portuguesa com vocação lusófona, ou seja, pretendemos descobrir e publicar autores lusófonos que, obviamente, escrevam em língua portuguesa;

      A minha resposta: Nem que o Brasil ou Angola ou Macau ou seja qual país fosse ou colónia que tivesse sido nossa continuasse a ser, eu não era obrigada a ler na língua desses países, por algum motivo tenho a minha própria língua, o Português de Portugal, a qual estudamos tantos anos na escola, uma disciplina OBRIGATÓRIA, o Português de - Portugal -, e é só na minha língua que eu leio, lá por a língua brasileira ser parecida à nossa, não deixa de ser o Português do Brasil e cada um no seu lugar! O galego também é muito parecida à nossa, vai passar a haver edições em galgo? Ou em Mirandês?

      - A autora do livro é brasileira e vive no Brasil, onde o livro já foi também publicado;

      A minha resposta: Foi publicado em Portugal em Brasileiro, foi publicado no Brasil em Brasileiro, se alguma vez fosse publicado em Espanha ou na Inglaterra ou em França, seria imediatamente traduzido para as respectivas línguas, eles traduzem TUDO nos outros países, mas em Portugal não temos direito a ter uma tradução em PT-PT como deve de ser?

      - Sendo a o português do Brasil irmão do português de Portugal não nos fez sentido, neste caso específico, traduzir as palavras da autora, visto que a sua escrita é bastante simples e perceptível e que consideramos ser sempre preferível ler um livro na língua original;

      A minha resposta: A Espanha é que é conhecida por ser o nosso país irmão, não foi assim à tanto tempo que até escrevíamos como os espanhóis! Se for atrás na história ver como escrevíamos vai ver muito do espanhol na língua portuguesa! Fazia parte da nossa língua! Então que se lixe a tradução de um bom livro para o Português de Portugal, vamos ler os originais nas outras línguas, porque somos obrigados a saber as línguas todas, mas eles não são obrigados a ler na nossa, pois traduzem tudo? Até os áudio de séries e filmes? Só nós é que não traduzimos nada? Até parece que não têm orgulho na nossa língua!!!
      Peço desculpa mas achei esse comentário descabido.

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    2. - Neste caso particular, e esta é a explicação principal, optámos por não fazer uma tradução integral pois consideramos que existe um lacuna no mundo da literatura infantil no que toca à descoberta do português do Brasil por parte dos mais novos. Dado o livro ser infato-juvenil, decidimos que o melhor seria colocar algumas notas de rodapé para que os mais novos possam ter contacto outras expressões e formulações do português;

      A minha resposta: Discordo totalmente, se já é difícil fazer uma criança ler em Português de Portugal, se já na nossa língua dão erros e mal sabem falar e de gramática é zero, qual o interesse de os fazer ler em brasileiro? Qual o sentido de estar a quebrar a concentração da leitura para estar constantemente a ler notas de rodapé? Não concordo minimamente com essa afirmação e sinceramente se se preocupam mais com o que vocês acham em vez de pedir a opinião dos leitores, então eu não tenho interesse em ler mais livros desta editora ou de outra qualquer que tenha esse pensamento. Falei com bastantes pessoas e nenhuma tem interesse em ler livros em brasileiro, preferem ler noutras línguas, as que damos na escola, inglês, francês, espanhol, por exemplo. As que realmente falamos e temos de praticar para o trabalho. As que usamos na nossa vida!
      Já tive pessoas do brasil a dizer que não compreendiam o que eu dizia, mas eu sou obrigada a compreender o que eles dizem? Por favor. Estou em Portugal, falo e leio na minha língua. Quando vou a outros países também tenho de me desenrascar para falar a deles, pois eles não
      vão falar a minha, e isso garanto, que sou ex-emigrante! Ainda mais vão saber falar se os Portugueses (de Portugal) nem sequer traduzem para a sua língua!!!
      É a minha opinião, é a minha liberdade de expressão, quem não concordar que faça bom proveito na leitura conforme lhe der mais gosto.

      - Por último, é importante salientar que o livro foi integralmente revisto e algumas expressões sintáticas principais foram traduzidas para que não causem confusão aos jovens que estão ainda a aprender a gramática. A falta de tradução está apenas em algumas expressões.

      A minha resposta: Podiam ter investido esse trabalho todo numa tradução como deve de ser em PT-PT, o Português de Portugal é nossa herança, o nosso orgulho, a nossa pátria. Podiam até manter o original do brasil, mas faziam uma tiragem em pt-pt como deve de ser para os outros que gostam de ler na sua língua materna.

      E sobre isto não tenho mais nada a dizer.
      Boas leituras

      Já na Chiado Editora também estou a perder o interesse visto no site deles terem tudo à mistura, livros Portugueses e Brasileiro, estão apenas separados pela temática, de resto ao vermos as capas e sinopses dos livros não fazemos ideia se estão em pt-pt ou pt-br.

      Se as editoras estão mais preocupadas em fazer à sua maneira do que perguntar aos leitores, sem eles as editoras não são NADA, como os leitores querem, importa só o que eles querem e nos quererem obrigar a ler e falar como os brasileiros, então podem ter a certeza que deste lado perderam uma leitora.

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  3. Realmente na Chiado Editora já tinha reparado. Fico muito triste ao saber que uma editora que se diz portuguesa não é capaz de fazer a simples tradução de um livro para PT-PT. Os jovens estão cada vez mais "atrofiados" no que toca à gramática e todos sabemos que uma leitura frequente anda de mãos dadas com uma boa desenvoltura no que toca à gramática e à construção frásica!

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    1. Já nem refiro a simples tradução, refiro mesmo o facto de misturarem tudo, não tem jeito nenhum.
      E realmente é bem verdade aquilo que dizes, já se fala e escreve tão mal, a leitura é um grande auxiliar na escrita e fala, mas se nos metem a ler em brasileiro, baralha-nos as voltas todas, não percebo mesmo o objectivo, sinceramente...

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