[Notícias] Os ratos de biblioteca estão diferentes


As bibliotecas recebem cada vez mais gente mas, se no início o motivo da visita eram as letras impressas nas folhas de papel dos livros que forram as prateleiras, hoje é também a internet gratuita que atrai boa parte dos seus utilizadores.

As bibliotecas públicas estão a ganhar visitantes de ano para ano - um aumento a que não são alheios a crise e o desemprego, a que se soma a gratuitidade dos serviços oferecidos, cada vez mais diversificados, e que vão além dos livros e da leitura nos seus formatos tradicionais.

Hoje em dia, praticamente todas as bibliotecas oferecem acesso gratuito à internet e são dotadas de um número significativo de computadores, que atraem cada vez mais pessoas.

As 510 bibliotecas públicas nacionais estão acima da média europeia no que respeita à oferta de tecnologias de informação. De acordo com um estudo europeu elaborado pela Fundação Bill e Melinda Gates, em que Portugal participou através da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, mais de 90% das bibliotecas públicas possuem computadores ligados à internet e acesso sem custos, e cerca de 60% de entre elas têm wi-fi.

No último ano, um milhão de adultos usaram uma biblioteca pública em Portugal (12%) e, desses, 14% utilizaram os computadores existentes para aceder gratuitamente à internet. Os recursos digitais também são considerados relevantes entre a generalidade dos utilizadores das bibliotecas, mesmo que não os usem: 96% consideram tão importante o acesso gratuito à internet e aos computadores como a oferta de livros para ler e emprestar (ver gráfico).

Na biblioteca de Alcanena, no distrito de Santarém, os leitores procuram mais leitura de lazer e a utilização da internet, "seja através do seu computador pessoal e usando o sistema sem fios, quer usando os nossos computadores", refere ao i Óscar Martins, responsável por aquela estrutura.

O estudo da Fundação Bill e Melinda Gates salienta que 57% dos utilizadores nacionais da internet nas bibliotecas, na sua maioria homens com idades entre os 15 e os 24 anos e residentes em zonas rurais, consideram o serviço extremamente importante, em comparação com 36% dos europeus que pensam o mesmo. De resto, os portugueses vão também mais longe que os seus pares europeus quando se trata de atribuir importância à formação prestada pelas bibliotecas em competências informáticas e internet (73% consideram-na um serviço importante, contra 54% na UE). Porém, a ajuda prestada pelos técnicos nessa matéria diz sobretudo respeito à utilização dos equipamentos e à procura de informações no site da própria biblioteca. Segundo a pesquisa, cerca de 38% dos utilizadores de bibliotecas em Portugal receberam orientação de um funcionário, face a 49% na UE. Em termos qualitativos, o apoio dos bibliotecários e técnicos é mais requisitado para a procura de emprego, elaboração de currículos, redacção de cartas de apresentação e preenchimento de formulários de emprego e não só, e menos para negócios ou compras online.

Os cursos de tecnologias da informação ministrados pelas bibliotecas têm, por isso, uma grande procura, sobretudo por parte da população mais velha, cuja lista de espera chega aos dois anos em algumas instituições.

PROCURA DE EMPREGO Desde que começou a crise que as entradas na biblioteca de Alcanena aumentaram e há mais leitores inscritos, refere Óscar Martins. Aqui, a utilização da internet também está entre os serviços mais procurados. O mesmo cenário repete-se em Castelo Branco onde, nos últimos três anos, a frequência de visitantes tem aumentado e continua a aumentar diariamente, "tanto a nível da utilização da internet como na participação nas actividades para a comunidade", refere a direcção da biblioteca municipal albicastrense.

Mas não é só a crise a levar mais gente às bibliotecas e a usufruir da sua internet gratuita. Os motivos variam consoante as características etárias e socioeconómicas dos públicos. Os estudantes, por exemplo, preferem uma biblioteca a um cibercafé, pelo ambiente mais tranquilo e pela oferta de bens complementares como livros, jornais e revistas.

Já os reformados, independentemente dos seus rendimentos, procuram a internet das bibliotecas para aproveitarem os conselhos dos funcionários para usarem os computadores, sobretudo para lidar com instituições governamentais. Cerca de 25% dos utilizadores da internet nas bibliotecas usou-a para interagir com entidades públicas, através do envio de formulários ou para obter informações. No caso dos mais velhos, com menor nível de instrução, surgem também pedidos para a abertura de contas de email e de ajuda para interagir com a Segurança Social.

A internet nas bibliotecas também é muito procurada pela população desempregada, que encontra ali não só a oportunidade de aceder ao serviço gratuitamente, mas também a ajuda dos bibliotecários na busca de trabalho. "Tem havido desempregados a pedir ajuda para elaborar os seus currículos, mesmo de cursos do IEFP que são reencaminhados para a biblioteca para fazerem esse trabalho, por não terem computador em casa", explica Óscar Martins.

IMIGRANTES E SEM-ABRIGO O estudo da fundação Bill e Melinda Gates corrobora este exemplo. Cerca de um terço dos internautas utilizou os computadores das bibliotecas para alguma actividade relacionada com emprego. Desse universo de 43 mil utilizadores, pouco menos de metade (20 mil) usou esses equipamentos para se candidatar a um emprego no último ano e 4 mil conseguiram arranjar trabalho usando esse meio. Para responder aos pedidos crescentes de apoio por parte dos desempregados, algumas bibliotecas já começaram a preparar e a dar formações que os auxiliem na procura de emprego.

A localização central e o facto de serem sítios abertos a todo o tipo de pessoas também favorecem as bibliotecas. Os imigrantes e os sem-abrigo usam os computadores dessas instituições para contactar com a família e amigos e o espaço da biblioteca para se sentirem acolhidos socialmente, revela a pesquisa. Muitas bibliotecas dispõem ainda de material para cegos e amblíopes.

Bibliotecas portuguesas custam 5,5 euros per capita

Portugal está entre os países europeus que menos gastos têm por ano com as bibliotecas públicas

Segundo os dados da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas, as 194 bibliotecas centrais – as que estão situadas nas sedes de município – despenderam em média, durante 2011, 215 mil euros cada, o que, em termos globais, se traduziu em 42 milhões de euros de despesas totais, sendo que 77% são despesas com pessoal. 
Com base nos dados da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, as despesas com as bibliotecas representavam, em 2011, 5,5 euros per capita, um valor muito abaixo da média de outros países europeus. A Finlândia e a Dinamarca são dos países que mais gastam com bibliotecas, com um valor superior a 30 euros per capita (ver mapa em baixo). 
O funcionamento das bibliotecas públicas é quase exclusivamente público, mas o governo central suporta apenas cerca de metade do investimento, cabendo a construção dos equipamentos e o seu equipamento às autarquias onde se inserem. Os cortes orçamentais a nível central e local têm condicionado a renovação do acervo bibliográfico em algumas bibliotecas.

Economia versus literatura “Dadas as restrições orçamentais e a proliferação de publicações, a maior parte de qualidade, não tem sido possível fazer uma actualização do fundo documental de forma a acompanhar o mercado da edição”, refere Óscar Martins, responsável pela biblioteca municipal de Alcanena. 
A biblioteca de Castelo Branco, que possui 150 mil livros, também sublinha as dificuldades trazidas pela conjuntura económica actual, mas ressalva que, mesmo assim, “tem mantido um cuidado especial na aquisição de livros e outros equipamentos necessários ao funcionamento de uma biblioteca com as características desta”. As restrições orçamentais também se fazem sentir na renovação dos próprios equipamentos informáticos.

Tanto os directores de bibliotecas como os utilizadores da internet nestes espaços, consultados para o estudo, consideram que o hardware e o software estão desactualizados e, em alguns casos, obsoletos, o que torna mais demorada a navegação na rede e a execução de funções. O estudo da Fundação Bill e Melinda Gates sublinha que os cortes orçamentais levados a cabo nos últimos anos atingem duramente este sector.

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