[Vamos ler um livro? - Opinião] Corações Gelados | Laurie Halse Anderson


Sinopse
«Eu sou aquela rapariga.
Eu sou o espaço entre as minhas coxas, a luz do sol a derramar-se entre elas.
Eu sou a auxiliar de biblioteca que se esconde na "Fantasia".
Eu sou a aberração de circo enclausurada em cera.
Eu sou os ossos que eles querem, ligados num molde de porcelana.»
Viajei na terra dos Corações Gelados devido às inúmeras leitoras que me escreveram a contar a sua luta com distúrbios alimentares, automutilação e sensação de andarem perdidas. A sua coragem e sinceridade puseram-me no caminho para encontrar Lia e ajudaram-me a compreender a sua devastação. Embora não seja uma história da vida real, Lia foi inspirada nessas leituras, e por isso lhes estou muito grata.
O livro em si é um grande desabafo, passa-se todo em modo de desabafo, entre o que está a acontecer e o que ela está a sentir.
Repleto de um sarcasmo mórbido, que eu aprecio bastante, mas pode chocar algumas pessoas, a forma fria e indiferente como a personagem se vê a si e ao mundo, no entanto, com tanta dor, tanto sofrimento, tão perdida em si própria.
E como eu sei o que me é sentir assim... Perdida dentro de mim própria. Quando eu era adolescente também tinha certos pensamentos daqueles. Às vezes ainda tenho. É uma leitura intensa, contada sempre na primeira pessoa e sempre do ponto de vista de Lia. 

O "embalo" da escrita é o mesmo que em "Grita!", no entanto nesta história a personagem principal, Lia, é mais auto-destrutiva, inconsciente, dramática, apesar de mais velha.

Relata bem a realidade de tantas crianças, adolescentes e jovens adultos em que muitos poucos casos desses nem eles se dão conta do que estão a fazer a si próprios, como os pais, familiares ou amigos, se os tiverem também não.

Não aconselho a leitura a quem já por si andar deprimido, pois é uma leitura algo pesada, entramos na mente desta adolescente conturbada, no entanto para os mais corajosos e para aqueles que precisam de saber que não são os únicos a sofrer neste mundo, é uma leitura recomendada, pois serve para "abrir a pestana".

Não é um livro para influenciáveis, pois a sua bulimia é doentia. Por curiosidade procurei por sites só com as palavras blog bulimia... é incrível a quantidade deles que existem!!
Se pesquisarmos em inglês então!!! credo...
Se soubessem o horroroso que é ver uma mulher em ossos, o esqueleto, em que até temos medo de lhe tocar e partir... E tanta gente no mundo a passar fome e em esqueleto quando dão a vida, muitos literalmente para comer seja o que for, pois mais nojento que seja.

Eu já tive 21 anos e 32kg. Tenho uma foto tirada no dia em que me vi realmente ao espelho e no estado em que me encontrava. Não me reconheci. Não era eu... Só ossos, peles, olhos enterrados no rosto, olheiras profundas... Parecia que... Já nem existia...
Não... Eu não era, nem nunca fui bulímica na minha vida, nem nunca tive o mínimo interesse. Pelo contrário, nunca me preocupei com o que comia nem com dietas nem com nada dessas coisas.
Nunca tive problemas de engordar (fora agora aos 27) e tudo isto (o facto de ter pesado 32kg com 21 anos) foi devido à medicação que tomei nessa altura. Eu estava doente, estava com um grande esgotamento, depressão profunda e tive de ser internada e fazer vários tratamentos, inclusive curas do sono, porque eu não conseguia dormir, e os minutos em que eu "apagava" tinha pesadelos, terrores nocturnos, basicamente viver era uma tortura. Tomava quilos de medicação e aquilo que me davam para comer era uma porcaria, durante o internamento, só comia quando me obrigavam a comer, pois nunca tinha apetite.
Lembro-me de pouquíssimas coisas desses dias, eu nem a minha família e amigos que me foram visitar reconhecia. Eu era uma sombra de mim própria. Estava ali, mas não existia para o mundo, nem o mundo existia para mim.
E agora preocupo-me muito com a alimentação pois estragou-me o organismo e o corpo todo. Já não abuso dos chocolates, salgados, bolos, fast food como antes, pois antes eu abusava e continuava trinca espinhas à mesma, agora não. Até descobri o que é retenção de líquidos, coisa que eu nem sabia que existia.
Mas mesmo assim tenho MUITO respeito pela comida, e um dos meus maiores medos da vida é não ter que comer, por isso para mim é imperdoável não comerem por dietas ou pior, comerem e vomitarem a seguir... Com tanta gente a passar fome.... Imperdoável.

O meu caso, o facto de eu ter ficado naquele estado, em pele e osso foi diferente. Não foi pré-meditado e disseram-me que a medicação também me "sugava" toda, pois era mais a medicação que eu tomava do que aquilo que eu comia...
Mas a raiva que eu sinto nestas situações e que senti ao ler o livro é porque eu já passei fome, mais do que gostaria, já chorei por ter fome e não ter de comer, e não desejo esse desespero a ninguém, nem ao meu pior inimigo, a ninguém no mundo. Não sou capaz de passar por um pedinte e não lhe dar nada, porque não quero imaginar, pensar sequer no que é viver aquilo que eu vivi algumas vezes, todos, todos os dias... Sem saber quando vai acabar... Quanto mais impingir-me isso a mim própria!
Eu sei que é uma doença, que é psicológico, mas não dá. Como ela diz no livro "é matar-me de dentro para fora", e é... Pois neste livro explicam bem um exemplo do que acontece ao corpo de uma bulímica, numa autópsia. É horroroso... Miúdas tão novas...
Eu tenho o meu corpo todo estragado, involuntariamente, já nasci com alguns problemas, mas quase todos os outros problemas foram-me impingidos devido à minha ex-profissão. Dava tudo para ter um corpo como deve de ser, ser saudável!

Uma das coisas que eu mais gosto de fazer é de comer! Não gosto de enfardar! Tanto que a Gula me dá nojo, até é considerado pecado, e para mim tanto me dá nojo quem come de forma mórbida e obsessiva como que não come e o pouco que come vomita. Mais uma vez sei que é doença, sei bem, demasiado bem o que é um transtorno psicológico, o que é batalhar connosco próprios, e pior... perder! Mas dá nojo... O meu irmão sempre passou por isso e teve de ser tratado, a forma mórbida como ele comia (e ainda come às escondidas, desconfio) era mórbida e nojenta. Comia tanto sem controlo que o vi a vomitar, o próprio corpo regurgitou porque não aguentava tanto lá dentro (pizza!)! E depois disso ia comer outra vez! Não!!! Há limites...

O pior de tudo isto? É quando são os pais ou alguém na família o obrigar, influenciar. Isso é o que mete ainda mais nojo. Não foi o caso na minha família, agora que penso nisso, coitados dos meus pais. Ver uma filha quase desaparecer, parecia uma múmia, e o outro que quase ocupava duas cadeiras... Bucha e o estica... Mas fizeram tudo para nos meter "normais", especialmente ao meu irmão, o mais problemático nesse aspecto da obsessão com a comida e eu vi bem a luta deles. Tanto comigo como com ele. Ainda no outro dia o meu pai me perguntou: "Andas a comer? Mas a comer bem!?"

Pelo tamanho da minha opinião podem ver como este livro mexeu comigo e as coisas em que me fez pensar... Esta autora é muito expressiva, sincera e realista. Adoro-a. Este livro está escrito de uma forma sarcástica, mórbida, muito humor negro, muito negativismo, fria, directa, com muito desespero, mas o mais engraçado é que, quando eu leio histórias deste tipo costumo sonhar sempre (nunca mais me livrei dos pesadelos) mas tanto com o outro livro desta autora, o "Grita!" como com este, apesar de mexerem muito comigo, por algum motivo não sonhei com estas histórias...
Será por me estarem a aliviar os pensamentos, ver por escrito e tão bem descrito muitos dos pensamentos que eu tinha e alguns ainda tenho?
Excerto do livro aqui.

2 comentários:

  1. Não conhecia nem o livro nem a autora mas conseguiste despertar-me o interesse. Pela sinopse também não ia lá e o tema, admito, também não me toca particularmente. Mas gosto de escritores que escrevem com intensidade e que transmitem mensagens importantes e/ou interessantes. Vou ficar atenta a esta autora, portanto.

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    1. Mas conhecendo-te como te conheço, antes de leres este, lê o "Grita!", que eu meti na opinião o link para ir para a minha opinião dele. Mete o bullying, e ao leres o livro, parece que estás a ler fragmentos da minha própria vida, de episódios que eu já te contei a ti ou desabafei no blog da jovem atrapalhada.
      É um livro que eu nunca me esqueci, é tremendamente intenso e até me abalou, mas não no mau sentido. Aliás despertou algo em mim...
      Se não tiver na tua biblioteca (a tua terrinha tem biblioteca municipal, ao pé de ti?) tenho cá em casa para te emprestar :)

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