[Vamos ler um livro? - Opinião] Os Números que Venceram os Nomes | Samuel Pimenta | Marcador Editora

Num futuro distante, comprovada matematicamente a existência de Deus, os homens são obrigados a trocar os seus nomes por números. Ergue-se uma ditadura global, em que todos são controlados e descaracterizados. Uma sociedade de uma única religião, em que os algarismos definem tudo - pessoas, países, ruas, animais -, em detrimento da essência de cada um.
Um Nove Um Seis é um rapaz sozinho, que trabalha num call center, obcecado com o telemóvel - mais um cidadão entre os milhões que levam uma vida programada, sob a vigilância do Estado. Até que, certa noite, um imprevisto encontro com um gato de rua lhe provoca um ataque psicótico, que leva as autoridades a fechá-lo num hospício.
Internado, Um Nove Seis Um partilha o quarto com um velho que lhe fala da resistência ao regime: um grupo de pessoas que se sublevam escrevendo pesia, recolhendo animais vadios e atribuindo-se nomes em vez de números. Com o velho e o gato como cúmplices, Um Nove Seis decide tentar descobrir quem é - além de um número num sistema de dados.
Em Os Números Que Venceram Os Nomes - O medo aprisiona, a esperança liberta, Samuel Pimenta consegue, com uma destreza literária que nos prende do início ao fim, contar uma história empolgante. Embora passando-se num futuro imaginário, questiona muitos dos problemas das sociedades contemporâneas - a substituição estéril de um mundo espiritual por uma realidade puramente material.

Uma história muito original, utópica, inteligente e filósofa.
Fez-me pensar e reflectir mesmo muito durante toda a leitura, na minha vida, de quem eu sou, nos que me rodeiam, a forma como temos o mundo, como vivemos, como tudo está organizado, como está desorganizado, quem somos, o que fomos, o que vamos ser...

A tipo de escrita é bastante diferente de tudo o que já li, mas apreciei. Os diálogos fazem parte do texto, não há hifens nem construção de diálogo como estou habituada, simplesmente fazem parte da narração como um todo. Houve alturas em que tive de voltar um pouco atrás e me concentrar a ver onde estava a pergunta ou a resposta, pois não há sinais de exclamação ou interrogação ou mesmo dois pontinhos, nada a assinalar o diálogo, mas habituei-me rapidamente.
É uma escrita fluente, dá para entender bem quem falou, quem respondeu e tudo o que se passa.
As cenas, do passado e do presente também começam sem aviso e sem espaço ou novo capitulo, mas depois das primeiras vezes em que acontecem conseguimos perceber perfeitamente que é uma reflecção ou acontecimento passado, pois está bem estruturado, na minha opinião.

Fiquei muito curiosa em ler mais romances de Samuel Pimenta, gostei da escrita, das suas palavras, das suas ideias, das suas reflecções, senti mesmo que o autor estava a falar comigo e em certas situações até a questionar-me e a meter-me à prova, a fazer-me pensar, reflectir e adorei.

A forma algo futurista com que estão explorados os problemas e defeitos da nossa sociedade.
A forma como somos controlados pelos "poderosos" e pelo medo. Os que pura e simplesmente são diferentes e querem fazer a diferença são "apagados"... O facto de vivermos a vida com tanta pressa, sempre à pressa, sempre a correr, sempre com um objectivo qualquer, quase pré-programados, que nos esquecemos de viver verdadeiramente...
Uma das coisas que mais tenho medo é olhar para trás e dar-me conta de que não aproveitei a vida... que deveria de ter vivido mais... ultimamente dou por mim com muito medo disso, e por isso mesmo sem me dar conta acabo a dar por mim a ler este tipo de livros para despertar a minha consciência de quem sou e o que quero ser e fazer.

Há quantas décadas somos controlados ora pela religião, ora pela política, ora por poderosos, ora por tudo, menos por nós próprios?
Fazemos aquilo que realmente queremos fazer, ou somos conduzidos a isso, pensando nós que o fazemos por vontade própria? E se essa vontade nos é impingida subliminarmente?
Eu sou o que sou por mim, ou por tudo o que já vivi e por todos os que me rodeiam, ou um pouco dos dois?

De uma coisa tenho a certeza: prefiro viver com a dura verdade no que na ilusão da mentira.

Inteligente, filosófico, introspectivo, ... para quem, como eu, aprecia leituras deste género, recomendo sem reservas.

2 comentários:

  1. Hum, acho que vou querer este livro. Já andava com ele debaixo de olho, mas agora, depois de ler a tua opinião, fiquei ainda mais curiosa... não só pela história, mas pela inovação na escrita e na organização da narrativa :) acho que vou gostar ;)

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    1. Que bom saber isso! :D
      Inovador, sem dúvida! Depois diz-me por aqui o que achaste ;)

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