[Vamos ler um livro? - Opinião] A Revolução da Mulher das Pevides | Isabel Ricardo

SINOPSE
Perante os canhões e as balas dos exércitos franceses, Ana Luzindra só tinha uma arma: a sua beleza. Mas a beleza também pode ser mortal. A Revolução da Mulher das Pevides transporta-nos para os anos de terror das invasões francesas. A morte e a crueldade marchavam lado a lado com os exércitos veteranos de Napoleão. E enquanto a Família Real fugia para o Brasil, o povo ficava para suportar todo o tipo de humilhações. Na vila da Nazaré, Ana Luzindra é parteira de profissão e uma mulher simples. 
Para fazer frente aos canhões e balas dos franceses só tem uma arma: a sua estonteante beleza. Atraindo-os, um a um, para a morte na calada da noite, a jovem inspira toda uma comunidade e pegar em pedras e paus para expulsar os invasores. A Revolução da Mulher das Pevides, expressão da Nazaré que significa "algo insignificante", foi tudo menos isso: pelo sobressalto que pregou aos franceses, e pela posterior vingança desproporcionada que estes praticaram sobre a Nazaré, acabou por ser um dos momentos mais importantes da invasão, e inspiraria o longo e árduo caminho dos portugueses e aliados até à derradeira vitória sobre as tropas do temível Napoleão. Recorrendo a uma pesquisa exaustiva, Isabel Ricardo oferece-nos um bilhete para um dos períodos mais importantes da História de Portugal.

Fascinante romance histórico passado no nosso Portugal, e mais fascinante para mim foi pelo facto de se passar aqui tão perto da cidade onde eu escolhi para viver, Leiria, além de também haver partes que se passam na minha terra, Lisboa.
Ainda mais fascinante foi quando decidi ir de propósito até à Nazaré para continuar a leitura, depois de ler que se passava em sítios que eu conhecia bem, como o terreiro do Sítio da Nazaré e foi uma experiência transcendente estar a ler precisamente no mesmíssimo lugar onde a história se passava. Olhar para a paisagem descrita e quase ver a acção a acontecer mesmo à minha frente...

No livro, no que toca aos capítulos referentes à Nazaré, ao seu povo, às suas gentes, a narrativa está maravilhosa, intensa, muito dramática e no entanto em certas partes tão divertidas que me arrancaram verdadeiras gargalhadas, e A-D-O-R-E-I o facto de o livro estar escrito com a fonética Nazarena, a verdadeira pronúncia que ainda nos dias de hoje ouvimos, quando lá vamos! Nestes capítulos, a história torna-se tão intensa de tal forma, tão vívida, que dá para sentir mesmo o que os personagens estão a passar, até cheguei a sentir o frio que eles estavam a passar a dada altura, mesmo estando eu na praia da Nazaré durante a leitura (e estava calor)
Houve uma parte em que foi narrada de tal forma realista, que eu fiquei arrepiada, horrorizada, inclusive me deixou de tal forma transtornada que fiquei fisicamente agoniada, tanto que tive de parar a leitura para recuperar o sangue frio.
Essa parte partiu-me o coração em vários pedaços, pois eu afeiçoei-me verdadeiramente a algumas das personagens...

Sem dúvida que a autora tem potencial, especialmente no que se refere a escrever sobre aquilo com que se sente à vontade e tem real conhecimento pessoal, sentimento e experiência e consegue transmitir bem isso na sua escrita, no entanto...
No que se refere a todas as narrativas militarizadas, não sei se se deve ao facto de eu ser ex-militar ou se é mesmo a autora que não se sente à vontade com esta parte, mas eu achei esses capítulos superficiais, pouco realistas, e em certa parte até chega a ser saturante. Especialmente quando ao invés de narrar os acontecimentos históricos, mete as personagens a contar factos históricos no meio de discussões, enquanto andam de lá para cá, e até mesmo as personagens comentam que já sabem isso bem, obviamente, pois estão a viver esses tempos e nesses anos, por isso essas partes de interesse/informação histórica deveria de ser relatado em narrativa, e não em diálogo. 
Tanto que muitos desses diálogos chegam mesmo a tornar-se algo infantis, e nunca na vida, pessoalmente, acreditaria que os militares falassem e se exprimissem daquelas formas. No que toca a essas partes e só a essas, eu não apreciei a leitura e estive quase para desistir de ler em algumas partes que eu senti que o decorrer da história estava a perder a credibilidade...
Mas o capitulo seguinte era quase sempre de volta às gentes da Nazaré e lá me voltava eu a embrenhar completamente na história...

No entanto, os factos, acontecimentos históricos, a verdadeira história de como realmente aconteceu está lá, e nota-se que a autora se dedicou corpo e alma em enriquecer este romance histórico com o máximo de informações e factos históricos possíveis, e nesse aspecto fez um excelente trabalho, pois muitas coisas que realmente aconteceram eu não fazia a mesma ideia.

Houve uma altura, quando eu estava no autocarro de regresso a casa e estava a ler por acaso uma passagem em que personagens estão no meio do pinhal, e no autocarro eu ia passando por esse mesmo pinhal, eu senti um verdadeiro medo nas minhas entranhas, só de imaginar a qualquer altura saírem de lá tropas inimigas para nos fazerem mal. Mesmo eu sabendo o que sei, que faria eu, sozinha? Nem quero imaginar o verdadeiro medo entranhado nos âmagos que aqueles portugueses sentiram nesta invasão, especialmente aqueles sem qualquer mínimo contacto com técnicas militares, simples camponeses, pescadores, vendedores, crianças, mulheres, idosos, aleijados... Verem tudo lhes ser roubado, perderem amigos, família, as suas casas, os seus pertences, as suas vidas...

No entanto, o povo português consegue sempre insurgir-se, e é um dos espectáculos e sentimentos mais belos do universo. (Temos um pequeníssimo vislumbre disso com a selecção Portuguesa).
Outro pormenor que apreciei muito, foi: "Este livro não segue as normas do novo Acordo Ortográfico"

Uma leitura recomendada a todos os que querem saber mais sobre a nossa história, e sobre o que é ser Português.

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